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Nº IX Entre sessões e silêncios - Ser, apesar de tudo

Foi um final de ano cansativo.

Mesmo com as celebrações agradáveis e as refeições fartas, havia um cansaço que não vinha do corpo.
Era um cansaço das pessoas.
De pisar em ovos para falar.
De ouvir reclamações contínuas e desnecessárias.
De escutar palavras que se dizem realistas, mas que carregam um pessimismo capaz de enterrar sonhos antes mesmo que eles tentem nascer.

Ela olhou para tudo isso.
Parou.
Refletiu.

Percebeu que seu jardim estava, mais uma vez, descuidado. As folhas murchavam em silêncio, sufocadas por excessos que não eram seus. Foi ali que decidiu: não aceitaria mais negatividade desnecessária. Não teria mais medo de existir como é. Não fugiria da própria realidade.
Decidiu ser ela mesma.

Ao se observar com mais honestidade, percebeu-se machucada em vários lugares. Havia cicatrizes que tentava esconder, como se fossem falhas. Pela primeira vez, cuidou das feridas sem pressa — e parou de se envergonhar das marcas que a vida deixou.

Olhou para a própria subjetividade.
Para a mulher única que era.
E entendeu o quanto precisava sustentar isso no mundo, não como imposição, mas como possibilidade — para que outras pessoas também pudessem enxergar que é possível.

Evitar a dor é quase impossível.
Mas a forma como escolhemos lidar com ela muda tudo.

Quando acolhemos a dor, damos lugar e nome a ela. Não como inimiga, mas como presença. Com o tempo, aprendemos a conviver juntas. Aprendemos a perceber quando ela começa a nos adoecer — e quando, paradoxalmente, se transforma em força motriz para atravessar obstáculos.

Às vezes, a dor também serve para isso:
tirar o véu dos olhos
e mostrar que algumas situações já não nos cabem mais.

Há dores que não pedem fuga — pedem escuta, verdade e coragem para mudar de lugar.

 

Nº VIII Entre sessões e silêncios - A dor que ela sentia não era frescura — era luto em voz baixa

Nos últimos meses, ela vinha carregando uma dor que quase ninguém percebia. Era uma dor discreta, silenciosa, que não se impunha diante dos outros. Não havia cenas, não havia pedidos explícitos de ajuda — só um cansaço diferente, um olhar mais demorado para o nada, um aperto que surgia nos momentos mais improváveis.

Por fora, tudo parecia normal.
Por dentro, não.

Ela tentava seguir a rotina: cuidar da casa, do trabalho, da família, das demandas que nunca cessam. Cumpria todos os papéis, porque sempre foi assim — forte, funcional, firme. Mas havia algo que insistia em escorrer pelas frestas: uma falta que ninguém via, um vazio que teimava em puxá-la de volta para uma lembrança que doía. A perda que viveu não fez alarde. Não houve tempo para pausa, não houve espaço para aprofundar a despedida.Foi uma dor guardada às pressas, encaixada entre compromissos, engolida para que o mundo não desmoronasse.

Só que o corpo sabia.
O corpo sempre sabe.

Às vezes era uma tensão no peito.
Às vezes, um suspiro que não completava.
Às vezes, aquele desejo de ficar em silêncio e não precisar explicar nada a ninguém.

Nas sessões, ela finalmente começou a colocar em palavras o que estava tentando sobreviver desde então. Falou da saudade, da culpa que não fazia sentido, do medo de esquecer detalhes. Falou do incômodo de parecer “exagerada” quando, na verdade, estava tentando segurar a onda sozinha.Falou também da solidão: a solidão de viver um luto que ninguém reconhece porque, para o mundo, “já passou por isso, esse é o ciclo da vida”.

Mas não tinha passado.

Foi ali — entre pausas e lágrimas contidas — que ela percebeu: a dor dela era legítima. Não era frescura, drama ou carência. Era luto. Um luto quieto, sem plateia, desses que se alojam na alma e pedem cuidado em silêncio. Com o tempo, ela começou a fazer algo simples e transformador: deu permissão para sentir.

Permitiu-se chorar no banho.
Permitiu-se falar sobre o que sentia sem pedir desculpas.
Permitiu-se acolher o próprio coração sem se apressar para “ficar bem”.

E foi assim, aos poucos, que encontrou lugar para repousar. Entendeu que algumas dores não querem ser resolvidas — querem ser vistas. Querem espaço, nome, colo. Querem um canto seguro onde possam existir sem julgamento.

E ela aprendeu a fazer isso por si mesma:
acolher a dor, conversar com ela, deixar que respirasse.

Porque luto não é só a ausência de alguém.
É a presença profunda do que foi amor.








NºVII - Entre Sessões e Silêncios - O medo de perder quem ainda está aqui

Foi uma semana intensa.
Duas crises de choro, dessas que vêm do fundo da alma. Choros de desabafo, de entrega, de abrir o peito e se permitir receber colo e cuidado.

Na terapia, voltou o tema da falta. Da ausência que ficou desde que a avó se foi. E de como essa ausência abriu espaço para outro medo — o de perder quem ainda está por perto. O coração, que antes batia em ritmo de saudade, agora batia com medo de mais despedidas.

No fim da semana, ela tinha combinado com a mãe: uma pequena viagem de quatro dias, só ela e a neta. Um descanso merecido, a duas horas de casa. Tudo certo, tudo organizado.
Mas, quando o dia chegou, o peito apertou. O medo veio com força. Medo de perder duas das pessoas mais importantes da vida.

Tentou desabafar. Procurou acolhimento.
Não encontrou.
E, como tantas outras vezes, precisou lidar sozinha — do jeito que dava.
Mais tarde, decidiu falar sobre isso nas redes. Escreveu. Compartilhou.
E quando viu as mensagens de carinho chegando, se sentiu menos só. Foi como se o texto tivesse abraçado de volta.

Olhou para as plantas. Sentiu o vento atravessar a janela.
Lembrou das palavras da terapeuta:

“Você não está perdendo, nem sobrecarregando.
Está permitindo que ela construa motivos para ficar — de forma natural.”

Essas palavras ficaram ecoando. Trouxeram um tipo diferente de calma — aquela que não nega o medo, mas o acolhe.

Nos dias seguintes, ela se permitiu sentir a falta, conversar com o vazio, dar lugar às emoções sem tentar escondê-las. Aos poucos, as coisas foram voltando para o lugar.
Resolveu pendências. Fez o que gosta. Se reencontrou com pequenos prazeres e com o próprio corpo.

Entre pausas e respiros, percebeu que estava voltando a si.
Que cuidar do outro também inclui cuidar do espaço interno que sustenta o cuidado.

E entendeu que, antes de zelar pelo jardim do outro,
precisava regar o seu.

Nº III - Entre Sessões e Silêncios: O Encontro com a Vulnerabilidade

Nº III

Mais uma sessão de terapia, mais um questionamento que insiste em ecoar na mente, como se fosse um sussurro que nunca se cala. Uma conversa densa, tensa e profunda. Retrospectivas se desenrolaram como filmes antigos, ciclos finalmente foram entendidos e, assim, teve início o doloroso e libertador processo de encerrá-los. Quantas vezes esse cenário se repetiu? Quantas vezes a vida foi ressignificada, não apenas pelos aprendizados obtidos, mas pela coragem de mudar o modo de enxergá-la?

E então veio o questionamento. Simples, quase discreto, mas carregado de uma verdade crua. Fez tanto sentido que começou a enxergá-lo em seus pacientes. Decidiu testá-lo, como quem planta uma semente e aguarda. Os resultados foram surpreendentes.

É na vulnerabilidade que encontramos nosso pertencimento.

Mas como lidar com essa vulnerabilidade? Um questionamento assim não é apenas um ponto de reflexão; é uma jornada. Às vezes, dolorosa, pois exige encarar aquilo que escondemos até de nós mesmos. E não é que seja nossa escuridão, como muitos acreditam. Talvez seja algo ainda mais delicado: a voz abafada de uma criança interior, que machucada, só quer ser acolhida. Essa criança pede o toque de um olhar gentil, um gesto de empatia, um beijo simbólico para sarar feridas que insistem em latejar.

O que nos torna pertencentes quando nos mostramos vulneráveis? E o que nos faz vulneráveis ao tentar pertencer? Essas perguntas carregam uma profundidade quase inquietante. Elas nos obrigam a enfrentar nossas facetas, aquelas que construímos para mascarar nossos medos de rejeição e julgamento. São perguntas que pedem um mergulho corajoso nas águas mais escuras de nosso ser.

Olhar para isso é como descer ao próprio poço. É um movimento silencioso, introspectivo e, muitas vezes, solitário. Apenas quem se aventura sabe como é reconhecer cada detalhe daquele espaço interno: as rachaduras nas paredes, os ecos que se confundem com nossa própria voz. E o mais impressionante é perceber que, mesmo lá, naquele fundo aparentemente inóspito, existe vida. Existe pertencimento.

Subir novamente não é apenas um ato de superação, mas de escolha consciente. É a decisão de acolher aquela parte frágil, de integrá-la, de mostrar-lhe que há beleza mesmo naquilo que julgamos imperfeito. É ensinar a si mesmo que a vida não é feita apenas de paisagens iluminadas, mas também dos pequenos instantes de sombra que nos convidam a descansar, refletir e crescer. E assim seguimos, rolando pelo caminho, não com pressa de chegar, mas com a leveza de quem aprende a apreciar a jornada.

Grata por ler !

💋💋 

Nº II - Entre Sessões e Silêncios: Naquela quinta, ela tinha Terapia.

Nº II

A quinta-feira amanheceu nublada. Pela manhã, tempestades marcaram presença: algumas pessoas reclamavam por terem se molhado, enquanto outras agradeciam pela chuva. O trânsito estava mais lento, e, mesmo com o céu cinza, o calor nos lembrava que era apenas mais uma típica chuva de verão. À tarde, o sol apareceu, iluminando o dia com sua cor e luz, trazendo consigo um céu limpo e um azul vibrante. O clima renovou a energia das ruas: mais pessoas circulando, mais barulho, mais vida. Assim passou a quinta-feira, com suas Quintanices.

Naquela quinta, ela tinha terapia. Organizou seu dia, seguiu a rotina matinal, lavou roupas, reparou as demandas a serem faladas e decidiu levar um bolo para compartilhar na sessão. Ao chegar, seguiu o ritual de sempre: pegou um copo d’água, entregou o bolo, e, com tudo preparado, começou a conversa. Entre tantos pontos levantados, havia um que a inquietava há anos.

Refletiu profundamente sobre a origem daquela questão. Seria algo errado com ela ou do ambiente em que vivia, o que ela precisava aprender com aquilo. Difícil chegar em uma conclusão quando envolve algo antigo. E ainda sim, havia disponibilidade. Insistiu. Sentiu uma aperto no coração. E, finalmente, disse o que precisava. Mais do que isso, ouviu o que precisava. Foi como arrancar um curativo de uma ferida já cicatrizada, mas que ainda era tratada como aberta e grave.

Se sentiu aliviada, com a sensação de que uma janela havia sido fechada e uma nova porta se abriu — um novo caminho, um novo aprendizado. Foi difícil fechar a janela, ela que sempre foi um ponto de vista e um direcionamento, o apego era muito forte e o medo de abrir a porta maior ainda. Foi necessário fazer o que precisava ser feito, mesmo que ela não gostasse. E depois foi ela quem mais gostou dos resultados que vieram. 

Naquele dia, entendeu que o orgulho a fazia carregar responsabilidades e lutar batalhas que não eram suas. Compreendeu que, em algumas situações e com certas pessoas, o melhor é apenas aceitar. A mudança, afinal, não depende dela, mas exclusivamente do outro. Naquela quinta-feira, ela foi à terapia. Naquela quinta-feira, ela aprendeu sobre aceitação. Ela aprendeu mais um pouco sobre si.

Grata por ler !

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Nº I - Entre Sessões e Silêncios: Uma crônica de Segunda

Nº I


É segunda feira a tarde, estava quente como de costume. Resolvi conhecer uma cafeteria nova que abriu na cidade. Uma decoração moderna, com pontos literários como referência e um aroma típico de café.
Estava vazia, somente eu e os funcionários do local, pedi um chocolate quente e um pão na chapa - sou uma mineira pela metade, não tomo café -. Na prateleira estavam livros e dentre eles todos os contos e crônicas de Clarice Lispector, além de outras, mas essas em questão me chamaram a atenção. 

Pedi ao balconista se eu podia ler enquanto comia e apreciava minha bebida, ele me permitiu e escolhi os contos de Clarice. O triunfo - era o título do conto que escolhi ler -, pra falar a verdade era o primeiro do livro e fiquei com ele mesmo. Era mais um conto sobre um casal que já não se suportava mais, com excesso de dependência emocional e como a protagonista lidou com o fim. - Interessante- Pensei quando terminei de ler. A escrita de Clarice, na minha opinião, sempre traz algum gatilho que no leva a pensar sobre alguma situação que passamos ou estamos passando.

Quando terminei a leitura, parei. Respirei fundo. Senti uma tranquilidade mental e uma disposição emocional considerável. Pensei em quantas vezes deixei de fazer algo do tipo, jogando a culpa na maternidade, nas tarefas de casa, no casamento, em qualquer coisa que viesse na mente. Sei lá porque... Medo? Preguiça? Insegurança? A ideia de que não mereço? Vai saber. Quantas vezes deixei de conectar comigo mesma e admirar. De passar um tempo de qualidade, que para mim é algo muito importante. 

Ouvi a conversa dos funcionários, estavam usando técnicas com os tipos de café e analisando os resultados. Os aromas que vinham e sabores. Foi divertido observar esse movimento humanos. Descobertas de sensações. Me fez me conectar comigo mesma, sacodir a poeira que se acumulou, olhar para o que surge e começar de novo. Logo pensei - Eu precisava disso! -.



Uma amostra de uma ideia em construção. 

Grata por ler !

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